quinta-feira, 29 de junho de 2017

Os Convencidos da Vida

Muito para lá do futebol, uma coisa entranhada no sangue, nos ossos, nos músculos daqueles que sabem que são melhores!, o caldo de ironia que as palavras anteriores reflectem pode ser compreendido numa lógica igual a um mau cheiro inoportuno com que nos possamos cruzar desconhecendo d eonde provém.

"Os Convencidos da Vida
Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(...) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi."

Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Não digas nada.



Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

terça-feira, 27 de junho de 2017

Futebol Amor és Tu

Paixão Rubra Somos Nós


Vitórias e derrotas, lágrimas em criança,
ao chegar a adulto como se o mundo acabasse em Vigo,
em LeverKusen somos deuses,

e vem um onze de príncipes

Bento,
Pietra, Humberto, Mozer, Alberto Júnior,
João Vieira Pinto, Alves, Stromberg, Chalana,
Rui Costa e Filipovic

Esqueço os dias cinzentos, porque a vida é vermelho Vitória, arte e poder, Tu, Nós.

Esqueçamos o mundo, merecemos a ilusão do vermelho coração!

Não volta o tempo mas estou-me lá para sempre, contigo-nos

domingo, 25 de junho de 2017

crianças traquinas


de calças rotas e pés descalços, uma bola de trapos, toda a ilusão nos pés feridos pelas pedras de tropeço,
o futebol é para as crianças
Amanhã é outro dia, cada golo um sorriso que espera um abraço
Futebol

quarta-feira, 14 de junho de 2017

da Natureza do Cansaço


O acto sem força
o mando corrupto,
a ausência de nobre conduta
a desinteligência
desconhecer a sua força
medo terrível de perder, aquilo que não é, não foi
e nunca será Seu

inútil acção, desconstrução
... Mas,
aquele que É
irrompe por uma sala
com um olhar subjuga
com uma palavra submete

e ele próprio se torna Um com o espaço
com a vitória e a derrota
incorruptível, soberano
altivo e sóbrio
sendo maior é igual, porque conhece
aceita e funde-se

guerreiro, num pueril exercício de vida

de um punhado de terra constrói uma casa
o outro faz desabar mil castelos
pela sua ignorância

esta é a natureza do cansaço,
A Ignorância e o temor do nada

vida intermédia



chamamos ao vento irmão
à vida sedução
ao abraço união

este acordar, lembra-me a força do silêncio

o que vê, olha e compreende
o jogo da vida
guerra ou paz, alegria ou nada

alegria,
a alegria do silêncio
a amizade natural com a vida

esqueço os jogos dos outros

intermédio mas eu,
nós com quem me quiser ser Um

O Nós é a vida toda
A coragem e a determinação
A vida toda

domingo, 4 de junho de 2017

Poesia Viva


de mãos nuas,
à espera de um abraço,
de uma palavra, de um sorriso,
de um silêncio cúmplice,
e este cheiro a noite súbita, como se me fizesses renascer,


os grilos, nesta noite morna de amantes intemporais
Humanidade

Os Convencidos da Vida

Muito para lá do futebol, uma coisa entranhada no sangue, nos ossos, nos músculos daqueles que sabem que são melhores!, o caldo de ironia qu...